segunda-feira, 10 de setembro de 2007

“É preciso pensar na sustentabilidade”

Cooperjornal de 08 de setembro de 2007

O economista Julio César Pinho está na vanguarda de um dos programas mais ambiciosos do governo federal: a produção de biocombustíveis. Graduado na USP, especialista em negócios internacionais e mestre em energia, Pinho é o Coordenador de Estruturação de Projetos de Biocombustíveis da Petrobras, e percorre o país como interlocutor da estatal para a parceria em projetos de geração de energia sustentável.

Jonas Diogo – Como a Petrobras tem tratado a questão das energias renováveis?

Julio César Pinho – Desde o ano 2000, entrou definitivamente e com muita força no planejamento estratégico da empresa a questão dos biocombustíveis, a questão das energias renováveis. Entrou de tal forma que foi criada pela Petrobras uma área específica para cuidar desse tema, a Gerência Executiva de Desenvolvimento Energético. Essa área cuida de tudo o que é novo em relação à energia dentro da Petrobras, e nesse sentido estão contempladas as energias renováveis, biomassa... enfim, todas essas alternativas que se discute atualmente. Nós temos metas com relação a isso, como, por exemplo, a mistura de etanol à gasolina a partir de janeiro de 2008.

Jonas Diogo - Como o Sr. avalia a atuação da estatal em projetos no Rio Grande do Sul, e como eles devem se desenvolver daqui para frente?

Pinho – O projeto com a Cooperbio, de Palmeiras das Missões, é um projeto de pesquisa para analisar um modelo produtivo de álcool, descentralizado em pequenas usinas, em oposição ao modelo centralizado das grandes usinas que integra a produção industrial e a produção agrícola. Esse modelo da Cooperbio vai permitir a produção de álcool pelos pequenos produtores de cana, através de cooperativas pequenas, e não com grandes indústrias. Temos também o estudo para a instalação de uma usina com capacidade de moagem de dois milhões de toneladas de cana por ano na região de São Luiz Gonzaga, mas esse é um projeto que ainda está em estudo e precisa passar por várias etapas antes de ser colocado em prática. Será preciso ter certeza da viabilidade. Na área de pesquisas, temos vários projetos em andamento para testar a viabilidade de produção de oleaginosas. Acreditamos que o Rio Grande do Sul tem grande potencial para a produção de biodiesel e etanol.

Jonas Diogo - Quais as principais ameaças para a cadeia da produção de biocombustíveis?

Pinho – Para a produção agrícola, acredito que o maior desafio é produzir a matéria-prima a um baixo custo e, ao mesmo tempo, garantir uma remuneração satisfatória para o produtor. É preciso fazer com que a matéria-prima seja competitiva no que tange a preços com a produção de óleo mineral. Portanto, vamos ter que reduzir nossos custos de produção e, na outra ponta, pesquisar cultivares que possam produzir uma grande quantidade de óleo por tonelada esmagada. É preciso garantir a produção de matéria-prima, porque sem ela não há como desenvolver esse setor. Outro ponto é a qualidade, e aí está um ponto fundamental, que os produtores e as cooperativas devem ficar atentos: é preciso buscar sempre as melhores cultivares para a região e utilizar as melhores tecnologias. As indústrias devem se adequar. Tudo isso deve estar voltado para a competitividade internacional, para que o produto possa ganhar mercado e garantir sua comercialização.

Jonas Diogo – Como o Brasil se enquadra no cenário internacional?

Pinho – Nós temos em andamento projetos e pesquisas nesse setor, tanto na produção de matéria-prima quanto na instalação de plataformas industriais. Eu diria que estamos muito bem, mas é preciso observar todos os aspectos. Esse número de projetos cresce muito mais rápido do que o mercado, o que pode ser perigoso no curto prazo. É preciso ter garantia para a produção industrial, porque sem isso pode quebrar toda a cadeia.

Jonas Diogo – Quando se fala em etanol, não como não lembrar do famigerado Pró-álcool. Qual é a garantia que esses projetos não incorrerão nos mesmos erros?

Pinho – Nos projetos que temos com a Cooperbio, por exemplo, uma das preocupações é que nenhum fornecedor de cana seja dependente economicamente da produção de cana. Nosso objetivo é incentivar o produtor a destinar parte da área a outras cultivares, para consumo próprio e para vender no mercado. É preciso trabalhar pensando na sustentabilidade.

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